Sentido

De vez em quando eu tenho medo de que tudo que eu não quero que transpareça esteja na verdade escrito na minha testa. Feito num pesadelo mesmo. Eu vou andando pela rua e gritando "A", "B", "C", e a minha testa tem D, E e F escrito em negrito, enorme, vermelho. Eu tenho medo de que todos os meus esforços pra guardar certas coisas sejam em vão e elas estejam na verdade flutuando sobre a minha cabeça numa nuvem dessas carregadas e a cada passo um trovão espalha a verdade e todo mundo percebe menos ...Continue lendo.

Na prática

Acredito plenamente na prática. Pela prática ponho a mão no fogo. Não existe conhecimento teórico que supere a experiência quando a realidade está em jogo. É aquela velha frase que diz que por não saber que era impossível, foi lá e fez. Vá lá e faça. Ler sobre muitas vezes nos tira o ímpeto. Não que eu não acredite no estudo, muito pelo contrário, mas uma vida não se faz de estudo. A dona Maria lavadeira sabe muito mais sobre o que faz do que a dona da lavanderia. Certos ofícios ...Continue lendo.

Aniversário

Quatro dias me separam de estar definitivamente mais próxima dos 30 anos do que dos 20. Quatro dias. Ainda me lembro do meu aniversário do ano passado, e na realidade o final inteiro de 2013 é muito vivo na minha memória. Há um ano atrás eu pesava quase 30kg a mais. Há um ano atrás eu tinha um emprego legal e coisas legais acontecendo, e ainda assim sentia que a vida fugia completamente do meu controle. Eu deixava as pressões e ideias e ideais do entorno tomarem conta, e vivia meus dias ...Continue lendo.

No canto do meu coração

É bonito que só, feito um dia muito azul. Como quando a gente olha pra cima e o sol cega um pouco mas não impede de enxergar. E a luz passando por entre as folhas da árvore faz um desenho bonito que dá vontade de fotografar e guardar mas não, porque não, não é possível guardar com precisão o que o olho pega num momento assim azul. Nem a melhor câmera do mundo consegue tornar eterno o que é momento. Existem os momentos fotografia, mas olhar a fotografia nem de longe é olhar o momento. ...Continue lendo.

O dia em que desapareci

No dia em que desapareci nada foi realmente diferente pra ninguém. A maior parte das pessoas nem sequer reparou, e pra quem não me conhecia, o vento soprava da mesma maneira e o sol brilhava da mesma maneira e tudo funcionava da mesma maneira. Mas eu desapareci. Não fui sequestrado nem fui abduzido nem fugi de casa nem me perdi nem viajei. Eu desapareci por completo e eu olhava meus braços e as cores iam ficando lavadas e lavadas e lavadas. As cores de tudo. Eu enxergava um clarão muito forte, ...Continue lendo.

Solar

Pouca coisa me deixa mais sem palavras do que a incerteza. Escrever é meu motor pra continuar vivendo, e se de alguma maneira tudo parece solto ou frouxo ou incerto, me perco. Me perco e não escrevo. E não vivo, apenas levo. Essa incerteza tem perturbado minha cabeça nessas últimas conturbadas semanas, e eu já nem sei mais do que faço ou falo ou sinto. Queria deixar quieto e esperar que a vida se encarregasse de consertar o que quer que exista de errado, mas acontece que não. Não e não ...Continue lendo.

E a árvore disse:

- Você tem medo de amar, como todos nós. Eu costumava ter medo de amar também. Eu costumava ter medo porque o amor veio e levou de mim esse pedaço que você não está vendo. Ficou faltando um pedaço. Eu fiquei um pouco sem cor, um pouco morta mesmo quando florida. Mas não, não era nada disso, nunca foi nada disso. Não era amor. Amor não tira pedaço nem leva nada embora. Amor não é aquilo que dói ou aflige ou incomoda em algum nível mesmo os níveis imperceptíveis de incômodo. É ...Continue lendo.

A Fera

Eu encostei com medo de encostar e de por alguma razão assustar a fera que jazia ali, parada e aparentemente morta. Coloquei a mão com muita muita calma, tentando mentalizar que se me mantivesse tranquila, ela sentiria e não faria nada comigo. Afaguei os pelos, que eram fartos e macios e negros muito muito negros. O coração batia forte e fez minha mão vibrar, enquanto eu continuava acariciando e o medo ia e ia e ia embora. Não era mais medo o que eu sentia. Era a excitação pelo novo. Era ...Continue lendo.

Eu

Eu caí e fui caindo e caindo e batendo e batendo, mas de repente não. De repente eu estava voando ou flutuando ou em alguma espécie de lugar onde não existia espécie alguma de gravidade. Meu estômago se revirava enquanto eu tentava retomar o controle do corpo e de suas funções e de suas desfunções e de suas disfunções. Eu levitava, talvez. Eu levitava e eu voava e eu flutuava e eu era a mistura disso tudo num espaço curto, muito muito curto de tempo. Eu inventava palavras e de repente ...Continue lendo.

Borboletas, vagalumes, cores e coisinhas

Existe céu, postei esses dias. Existe casa. Existe gente. Existe conforto. Quando confortável falo muito muito muito. E rio alto. E me desfaço em mil pedacinhos pelo ar. Existe céu e existe paisagem e existem montanhas por trás de tudo que eu olho, pelos caminhos por onde passo, pra me lembrar que existe mato quando a cidade cansa. Pra me lembrar que a natureza resiste, ainda, por entre tudo que se constrói. Construir é da nossa natureza, e eu gostaria que destruir não fosse. Como se fosse ...Continue lendo.